Inscrições abertas para Fórum de Arquitetura e Urbanismo em Pernambuco 15 dicas para a Edificação Ecológica

Imagine-se um artista consagrado desenvolvesse um projeto para a sua cidade. É de se esperar que a proposta seja conhecida por todos, que a idéia  seja discutida e analisada – enfim, que seja vista com curiosidade, no mínimo!

Curioso mesmo é saber que sim, um paisagista brasileiro, famoso mundialmente – Roberto Burle Marx – desenvolveu um projeto para Natal, mas tudo ficou no esquecimento com o passar dos anos.
Embora registrada na história da cidade do Natal, a passagem de Burle Marx – na transição dos anos 1970/1980 – para elaborar o Projeto Paisagístico do Parque das Dunas e da Via Costeira, reclama o resgate e o respeito merecidos. Ainda hoje, há desconhecimento de sua importância nos meios acadêmicos e até mesmo nas instituições que deveriam zelar pela memória urbana.

A construção da Via Costeira foi alvo de contundentes críticas, pelo impacto causado ao meio ambiente. A resistência ao projeto gerou conflitos, originou protestos populares e motivou a contratação do mais importante paisagista brasileiro pelo Governo do Estado que, naquela oportunidade, empenhou-se em divulgar amplamente sua participação nos jornais locais. Para elaborar o projeto, Burle Marx solicitou um inventário da vegetação existente, para só então desenvolver a proposta de recomposição das dunas e de arborização dos canteiros e das rótulas do sistema viário. Na época, o paisagista concedeu entrevista afirmando sua preocupação com a preservação do meio ambiente, marca registrada das suas intervenções: “O projeto será desenvolvido lentamente e mais importante ainda é que será aproveitada toda a flora da região [...] será montado em Natal um horto experimental para que seja acentuada a vegetação existente e não trazer de outras regiões” (Tribuna do Norte, 12/07/1979).

É sabido que os estudos se prolongaram por aproximadamente dois anos, observando rigorosos critérios profissionais. O levantamento botânico foi realizado pelo botânico Luis Hemydio de Mello Filho – parceiro de Burle Marx, que hoje dá nome à Biblioteca do Parque das Dunas. Embora o Horto Experimental tenha sido implantado na área, a proposta apenas foi executada parcialmente. Com a saída de cena do seu mentor, o Escritório Burle Marx & Cia., sediado na cidade do Rio de Janeiro, detém os direitos autorais do referido Projeto Paisagístico. No momento atual, às vésperas da realização de mais uma intervenção urbanística na Via Costeira, a Rede de Pesquisadores “Jardins de Burle Marx no Nordeste”, através de seus representantes no Rio Grande do Norte, vislumbra uma excelente oportunidade para resgatar o projeto e a paisagem idealizada por esse ilustre paisagista, que em 2009 completaria um século de vida. Seria uma bela e merecida homenagem, além de grande chance para Natal se incluir no rol das diversas cidades – ao redor do mundo – que ostentam Jardins de Burle Marx e se beneficiam com eles. Sem dúvida, uma atração a mais para a cidade, que qualificaria sua paisagem e resolveria um dos pontos mais criticados da discutida intervenção – o aspecto paisagístico.

Ainda é tempo de reverter a oportunidade perdida, de desenvolver em Natal idéias que evidenciam os aspectos singulares da paisagem local e, ao mesmo tempo, valorizam a vegetação nativa; permitindo sua preservação nos aspectos científico, didático e turístico-cultural.

Natal (RN), 25 de Agosto de 2008.

Professores MSc. Marizo Vitor Pereira e MSc. Paulo José Lisboa Nobre
Departamento de Arquitetura
Universidade Federal do Rio Grande do Norte

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