Casa Serra 2008: Todo o Charme da Serra em um Único Lugar Terminal Aéreo, Natal-RN

“A criação não é uma compreensão, é um novo mistério”
Clarice Lispector

Por Francisco Lauande

Lúcio Costa entendia haver uma diferença fundamental entre o arquiteto moderno e o modernista. Segundo ele, o modernista era aquele que se limitava a usar os cânones estéticos sem a capacidade de manipulá-los em consonância com os contextos histórico e social – desprovidos da noção de temporalidade social. O moderno seria então, o que aquele que, entre outras coisas, considera como base fundamental do conhecimento na arquitetura os ensinamentos do passado.

Lúcio Costa admitia haver em sua criação para o projeto do plano-piloto um uso deliberado de suas referências urbanas criadas através de estudos ou de sua própria vivência em determinadas cidades – o que pode ser entendido como o vínculo do sujeito-criador com uma temporalidade individual imanente no processo de produção da arquitetura. Brasília, portanto, não é apenas uma tradução de conceitos do que se imaginava para uma cidade moderna. Ela é também uma simbiose feita entre o passado e o presente. O projeto para as superquadras carrega tanto quanto os conceitos da cidade-jardim as imagens das cidades antigas do Brasil, como explicou Maria Elisa Costa:

“Nas cidades mineiras antigas, também a receita básica de moradia era uma só: casas geminadas, mesmo tipo de telhado, de janelas, de portas – as variações decorriam. Da topografia, de sutilezas de proporção, dos detalhes, do acabamento, da cor nas esquadrias, mas tudo claramente limitado pelo padrão comum da receita única. Talvez, seja este o parentesco entre dois resultados urbanos tão diferentes” (1).

A superquadra [figura 1] é um conjunto de edifícios residenciais sobre pilotis cercados por renques de árvores, formando um espaço finito configurado em um quadrado de 280 x 280 metros, cuja previsão de uma densidade populacional variava entre 2.500 e 3.000 pessoas. No item 16 do relatório para o plano-piloto de Brasília, Lúcio Costa explicitou a solução para o problema do setor residencial:

“Quanto ao problema residencial, ocorreu a solução de criar-se uma seqüência contínua de grandes quadras dispostas, em ordem dupla ou singela, de ambos os lados da faixa rodoviária, e emolduradas por uma larga cinta densamente arborizada, árvores de porte, prevalecendo em cada quadra determinada espécie vegetal, com chão gramado e uma cortina suplementar intermitente de arbustos e folhagens, a fim de resguardar melhor, qualquer que seja a posição do observador, o conteúdo das quadras, visto sempre num segundo plano e como que amortecido na paisagem” (2).

Croqui representando um conjunto de superquadras (extraído da transcrição do relatório do Plano-Piloto no livro “Registro de uma vivência”).

Croqui representando um conjunto de superquadras (extraído da transcrição do relatório do Plano-Piloto no livro “Registro de uma vivência”).

Nos anos 40, Lúcio Costa utiliza no projeto para os edifícios do Parque Guinle, no Rio de Janeiro, pela primeira vez, a proposta Corbusiana de deixar o edifício sustentado por pilares, com o objetivo permitir o rés-do-chão aberto – o pilotis. Este fato tornou-se um marco da arquitetura na época e que, mais tarde, foi utilizado nas superquadras em Brasília [figura 2].

Croqui feito por Lúcio Costa representando o projeto para o parque Guinle (extraído do livro “Registro de uma vivência”).

Croqui feito por Lúcio Costa representando o projeto para o parque Guinle (extraído do livro “Registro de uma vivência”).

Os edifícios das superquadras, diferentemente do que hoje entendemos como condomínio, não ocupam lotes e sim, projeções. O chão passa, por conseguinte, a ser de uso comum, onde a liberdade de ir e vir dentro do espaço formado pela superquadra é público. Em outras palavras, os moradores não são mais donos de um terreno. Eles passam a deter, apenas, a concessão de uso de um espaço “aéreo” sobre uma área que é pública. O pilotis foi utilizado como intenção não apenas de proporcionar visibilidade, mas o da permeabilidade, viabilizando a passagem dos transeuntes eventuais – sem inibição ou distinção. O seu uso, portanto, deixa explícita a pretensão de que a cidade pertenceria a todos.

A superquadra comparece no projeto para o plano-piloto como elemento que, de forma contínua, configura uma tessitura de um dos dois eixos estruturadores da área urbanizada: o eixo do homem no nível de sua existência individual – o outro viria a representar a afirmação do sentido coletivo, traduzido por Lúcio Costa através do que ele denominou como escala monumental. No item 23 do relatório do plano-piloto ele explica da seguinte maneira a diferença entre os dois eixos:

“É assim que, sendo monumental, é também cômoda, eficiente, acolhedora, íntima. É ao mesmo tempo derramada e concisa, bucólica e urbana, lírica e funcional [...] Brasília, capital aérea e rodoviária; cidade-parque. Sonho arqui-secular do Patriarca” (3).

Na confluência de quatro quadras Lúcio Costa propôs a localização de equipamentos comuns com o intuito de proporcionar integração entre os seus moradores. O protótipo que representa esse conceito encontra-se na asa sul de Brasília, entre as superquadras 107, 108, 307, 308. Os equipamentos escolhidos para o protótipo foram: igreja, escola, clube, cinema [figura 1] – tal conjunto passou a ser chamado, a posteriori, de Unidade de Vizinhança. Da obra de Kevin Lynch: “A imagem da Cidade”, extrai:

“Uma cidade legível seria aquela cujos bairros, marcos ou vias fossem facilmente reconhecíveis e agrupados num modelo geral [...] um cenário físico vivo e integrado, capaz de produzir uma imagem bem definida, desempenha também um papel social. Pode fornecer a matéria-prima para os símbolos e as reminiscências coletivas da comunicação de grupo” (4).

Croqui extraído do livro “Registro de uma vivência” feito por Lúcio Costa representando o projeto para o Plano-Piloto. Nos trechos 1 e 2 estão localizadas as superquadras “setecentos” (702 a 714) e “novecentos” (902 a 914).

Croqui extraído do livro “Registro de uma vivência” feito por Lúcio Costa representando o projeto para o Plano-Piloto. Nos trechos 1 e 2 estão localizadas as superquadras “setecentos” (702 a 714) e “novecentos” (902 a 914).

A permeabilidade proporcionada pelo pilotis assumiu um papel primordial na ligação entre as superquadras. Por seu intermédio, eixos reais e virtuais proporcionam possibilidades de articulação para o trânsito de pedestres. Sendo assim, o pilotis participa, de forma fundamental, na consolidação da integração, principalmente, do conjunto de cada quatro quadras. A implantação dos edifícios construídos na área residencial das setecentos (5) [figura 3] – da 702 a 716 –, na asa sul (714 e 715), são um exemplo de que é necessária a harmonia entre o edifício e a topografia para que a função plena do uso do pilotis seja atingida [figuras 4 e 5].

Edifício de dois pavimentos sobre pilotis localizado na área residencial das “setecentos” (714), na asa sul. A rua local que dá acesso ao estacionamento externo, corta o pavimento térreo (foto tirada pelo autor).

Edifício de dois pavimentos sobre pilotis localizado na área residencial das “setecentos” (714), na asa sul. A rua local que dá acesso ao estacionamento externo, corta o pavimento térreo (foto tirada pelo autor).

Edifício de dois pavimentos sobre pilotis localizado na área residencial das “setecentos” (714), na asa sul. O passeio encontra-se no mesmo nível do piso do térreo (foto tirada pelo autor).

Edifício de dois pavimentos sobre pilotis localizado na área residencial das “setecentos” (714), na asa sul. O passeio encontra-se no mesmo nível do piso do térreo (foto tirada pelo autor).

A comparação entre o croqui feito por Lúcio Costa para demonstrar a ocupação de uma superquadra [figura 6] com a implantação do projeto feita pelo Estado, demonstra que a realidade é uma interpretação e não, uma reprodução fiel da proposta. O modelo padrão [figura 7] utiliza projeções nas fronteiras da superquadra, cujo conceito se desfez em algumas superquadras, tanto na asa sul quanto na asa norte [figura 8]. Fica então, a hipótese a ser investigada de que se em cada caso fossem considerados os fatores como a insolação e a topografia, um melhor resultado na implantação dos edifícios seria alcançado, além de uma sintaxe espacial com mais possibilidades.

Croqui feito por Lúcio Costa representando a ocupação de uma superquadra (extraído do livro “Registro de uma vivência”).

Croqui feito por Lúcio Costa representando a ocupação de uma superquadra (extraído do livro “Registro de uma vivência”).

Vista aérea da superquadra 308, na asa sul. Uma das primeiras superquadras construídas. (Foto extraída do site GoogleEarth).

Vista aérea da superquadra 308, na asa sul. Uma das primeiras superquadras construídas. (Foto extraída do site GoogleEarth).

Vista aérea da superquadra 309, na asa norte. (Foto extraída do site GoogleEarth).

Vista aérea da superquadra 309, na asa norte. (Foto extraída do site GoogleEarth).

O uso do pilotis, em especial na superquadras mais novas, demonstra a subversão mais grave relativa ao conceito imaginado por Lúcio Costa. Ocorreu o que pode ser entendido como a inversão do protótipo para um estereótipo. A desarmonia entre a implantação do edifício e topografia aliada ao fenômeno da privatização parcial do pavimento térreo – que passou a ser usado, não penas para os acessos, mas também para espaços como o salão de festas – limitou o pilotis, do ponto de vista formal, à leitura como um elemento, cujo sentido da existência encontra-se praticamente limitado ao cumprimento de uma exigência do código de obras. Com efeito, o resultado do conjunto em uma superquadra ficou sujeito ao nível de comprometimento dos arquitetos e das incorporadoras com o conceito original. Preservou-se a visibilidade, mas não o mais importante, a permeabilidade. Os edifícios, aos poucos, transformaram-se em barreiras arquitetônicas que dificultam inelutavelmente o deslocamento de transeuntes e privam a população de usufruir os ensinamentos de grandes mestres da arquitetura [figura 9 e 10].

Edifício localizado na superquadra 311, na asa norte (foto tirada pelo autor).

Edifício localizado na superquadra 311, na asa norte (foto tirada pelo autor).

Edifício localizado na superquadra 111, na asa norte (foto tirada pelo autor)

Edifício localizado na superquadra 111, na asa norte (foto tirada pelo autor)

Francisco Lauande é arquiteto. Formado pela Universidade de Brasília (1987). Tem curso de pós-graduação em Sistemas de Construção pela Universidade Metropolitana de Tóquio (1990-1991). Foi membro do Conselho Fiscal do IAB-DF (1996-1997) e Diretor Cultural do IAB-DF (2000-2001). Foi o responsável pela organização da III Bienal de Arquitetura de Brasília (2001). Aluno de mestrado da FAU-UnB. Orientado pelo professor Antônio Carlos Carpintero.

Notas

  1. COSTA, Maria Elisa. Brasília 57-85: do plano-piloto ao “Plano Piloto”, p. 326. In: COSTA, Lúcio. Registro de uma vivência. São Paulo, Empresa das artes, 1995.
  2. COSTA, Lúcio. Plano-piloto de Brasília. Brasília, Módulo Arquitetura Ltda., s/d, p. 14
  3. Idem, ibidem, p. 18.
  4. LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. Tradução: Jefferson Luiz Camargo. São Paulo, Martins Fontes, 1999, p. 8.
  5. Área residencial projetada pela NOVACAP formada, primordialmente, por casas, contrariando a proposta de Lúcio Costa, que previa a localização de pomares e hortas.

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